''Me veja nos seus olhos, na minha cara lavada''
Acordou as 9.30 com os gritos e reclamações da síndica sobre o vazamento, sobre que ela não podia entrar e sair em horários absurdos como aquele, que ela levaria todas essas reclamações pra reunião, e blá blá blá. Fechou a porta com o telefone tocando, onde era ele pedindo que ela se vestisse, que iam almoçar com toda a família dele, que fosse bem arrumada porque era um restaurante chique e que não se atrasasse.
Te veste,arruma o cano, seja decente, seja pontual.
E ela só queria era dormir um pouco!
E no sono entrecortado, ficar pensando no gosto doce que estava nela, no cheiro antigo e na sensação de coração cheio. E cada vez que acordasse em meio ao sono leve, queria só poder reparar na luz do dia, que ela viu nascer junto com ele, entrando pela sala, e nesse momento ela teve vontade de ir até a janela e gritar pra síndica ‘sua demônia, eu saio essa hora sim, porque tu nunca deve ter percebido que certas coisas na vida só se pode fazer assim, a essa hora!E foda-se o encanamento.”
Com certeza.
Enfim, levantou sorrindo e colocou o vestido azul com sapatos vermelhos de salto altíssimo.
Quando ele a visse iria reparar em cada detalhe e comentar todos. Para ele, queria poder dizer, quando entrassem no restaurante chique:
‘essa madrugada eu saí do nada, as quase 5 da manhã, com um cara da minha infância que não via a anos, de pijama, com minha blusa de dormir aquela branca rasgada sabe que tu tanto reclama, de chinelos de dedo rosa que nem de marca cara são, de cabelo solto e crespo e bagunçado, de cara limpa e mãos vazias e foi a coisa mais viva e bonita que eu fiz nos últimos tempos.’
Sorriu pro espelho, se arrumou mais ainda agora lembrando. Porque arrumar-se era esconder tudo, e hoje, naquela madrugada, ela foi vista mais nua do que jamais havia sido vista na vida. Por um cara que nunca viu nada do corpo dela. Mas que a conhecia na sua forma mais original e não se importava com isso.
Ao chegar no restaurante, que devia estar a dias já escolhido, sentou-se a mesa e automaticamente pensou no porquê de precisarem ir a um lugar tão chique, tão caro, tão cheio de pessoas pra mostrar ou ocultar coisas, tão cheio de garfos e tão cheio de vazio.
Se ela, nessa madrugada, entrou num carro sem nada nas mãos, e foram sem rumo algum em direção a nada, até chegarem num local em que nunca tinham ido e rir completamente disso, e voltar e ver o dia nascer num lugar totalmente qualquer, sem ninguém além dos bichos que moravam ali, e darem as mãos num gesto tão antigo quanto eles dois ali, desarrumados virados saudosistas adolescentes doidos novamente de mãos dadas vendo o dia chegar.
-Garçom, por favor, quem é que está escolhendo essa música ambiente hoje? Isso esta horrível! Mal conseguimos conversar!
Ela lhes sorriu. Pensou na música ruim que ouviu no carro. Quase teve de segurar o riso dessa vez. Que bela merda, não tinham uma música boa eles dois, impressionante! A primeira vez que se beijaram a anos luz atrás era algo do tipo mas só de ouvir a sua voz eu já me sinto bem e aquela coisa toda. E agora, mesmo se encontrando do nada, no fim de uma sexta feira que já havia acabado para ambos, depois de anos sem se ver direito, de roupa de dormir, as 5 da manhã, mesmo depois de irem até fora da cidade, voltarem, verem o dia chegar, darem as mãos, lembrarem que os perfumes mudaram mas os cheiros continuam os mesmos, depois de olhar de novo dentro daquele olho enorme assim de cara limpa, depois de tudo isso feito assim do nada, feito assim as pressas, feito assim de loucos que eram, ainda assim a única música que lembrariam era uma música ruim. Enfim, Jujuba, bananada, pipoca. E Traz todo mundo, tá convidado, é só chegar.
Perguntaram do que ela estava rindo. Ela disse que riu porque serviram carne de pato no almoço. E isso lembrava ela de uma história engraçada.
Acordou as 9.30 com os gritos e reclamações da síndica sobre o vazamento, sobre que ela não podia entrar e sair em horários absurdos como aquele, que ela levaria todas essas reclamações pra reunião, e blá blá blá. Fechou a porta com o telefone tocando, onde era ele pedindo que ela se vestisse, que iam almoçar com toda a família dele, que fosse bem arrumada porque era um restaurante chique e que não se atrasasse.
Te veste,arruma o cano, seja decente, seja pontual.
E ela só queria era dormir um pouco!
E no sono entrecortado, ficar pensando no gosto doce que estava nela, no cheiro antigo e na sensação de coração cheio. E cada vez que acordasse em meio ao sono leve, queria só poder reparar na luz do dia, que ela viu nascer junto com ele, entrando pela sala, e nesse momento ela teve vontade de ir até a janela e gritar pra síndica ‘sua demônia, eu saio essa hora sim, porque tu nunca deve ter percebido que certas coisas na vida só se pode fazer assim, a essa hora!E foda-se o encanamento.”
Com certeza.
Enfim, levantou sorrindo e colocou o vestido azul com sapatos vermelhos de salto altíssimo.
Quando ele a visse iria reparar em cada detalhe e comentar todos. Para ele, queria poder dizer, quando entrassem no restaurante chique:
‘essa madrugada eu saí do nada, as quase 5 da manhã, com um cara da minha infância que não via a anos, de pijama, com minha blusa de dormir aquela branca rasgada sabe que tu tanto reclama, de chinelos de dedo rosa que nem de marca cara são, de cabelo solto e crespo e bagunçado, de cara limpa e mãos vazias e foi a coisa mais viva e bonita que eu fiz nos últimos tempos.’
Sorriu pro espelho, se arrumou mais ainda agora lembrando. Porque arrumar-se era esconder tudo, e hoje, naquela madrugada, ela foi vista mais nua do que jamais havia sido vista na vida. Por um cara que nunca viu nada do corpo dela. Mas que a conhecia na sua forma mais original e não se importava com isso.
Ao chegar no restaurante, que devia estar a dias já escolhido, sentou-se a mesa e automaticamente pensou no porquê de precisarem ir a um lugar tão chique, tão caro, tão cheio de pessoas pra mostrar ou ocultar coisas, tão cheio de garfos e tão cheio de vazio.
Se ela, nessa madrugada, entrou num carro sem nada nas mãos, e foram sem rumo algum em direção a nada, até chegarem num local em que nunca tinham ido e rir completamente disso, e voltar e ver o dia nascer num lugar totalmente qualquer, sem ninguém além dos bichos que moravam ali, e darem as mãos num gesto tão antigo quanto eles dois ali, desarrumados virados saudosistas adolescentes doidos novamente de mãos dadas vendo o dia chegar.
-Garçom, por favor, quem é que está escolhendo essa música ambiente hoje? Isso esta horrível! Mal conseguimos conversar!
Ela lhes sorriu. Pensou na música ruim que ouviu no carro. Quase teve de segurar o riso dessa vez. Que bela merda, não tinham uma música boa eles dois, impressionante! A primeira vez que se beijaram a anos luz atrás era algo do tipo mas só de ouvir a sua voz eu já me sinto bem e aquela coisa toda. E agora, mesmo se encontrando do nada, no fim de uma sexta feira que já havia acabado para ambos, depois de anos sem se ver direito, de roupa de dormir, as 5 da manhã, mesmo depois de irem até fora da cidade, voltarem, verem o dia chegar, darem as mãos, lembrarem que os perfumes mudaram mas os cheiros continuam os mesmos, depois de olhar de novo dentro daquele olho enorme assim de cara limpa, depois de tudo isso feito assim do nada, feito assim as pressas, feito assim de loucos que eram, ainda assim a única música que lembrariam era uma música ruim. Enfim, Jujuba, bananada, pipoca. E Traz todo mundo, tá convidado, é só chegar.
Perguntaram do que ela estava rindo. Ela disse que riu porque serviram carne de pato no almoço. E isso lembrava ela de uma história engraçada.
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