segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Não importava o que fora, queria o passo a frente.


Você é de Virgem, não? É o signo regido por mercúrio, o planeta da inteligência, as pessoas de Virgem sempre conseguem o que querem, embora no começo pareça tudo muito, muito difícil.

Dolorido-Colorido

Ando bem, mas um pouco aos trancos.
Como costumo dizer, um dia de salto sete,
outro de sandália havaiana.

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

E hoje em dia como é que se diz eu te amo



'' Ninguem se toca mais. E o que você faz com seus sentimentos, suas fantasias, sua necessidade vital e atávica e institiva de amor?"

Caio Fernando Abreu

trechos, singelos trechos

Caixa entrada do gmail, 15 e-mails não lidos, orkut, anatomia, curso de neurologia, opaa a resposta ao meu e-mail desesperador-desabafo-carta suícida enviado na terça de madrugada.

"vejo arco-iris e lembro de você' que bom que gostou, e sobre teu e-mail, eu juro que ia escrever muita coisa, levei um dia pensando em ti de todas as maneiras possíveis e cheguei a conclusão que vou te dizer duas ou três coisas:
Primeiro, caio fernando que tu me fez amar e não largo mais, carta ao zézim, tu conhece?
Lê, porque é muito amor de um amigo pra outro, e metade do que ele diz eu te diria.
(link)

E de tudo mais que tu disse, respondo simplesmente aquilo que ele diz tbm na carta:
''Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.''

O que tu faz quando vê, ouve e lê certas coisas?
Seja apenas linda, sábia e feliz. Que é sempre o melhor que tu pode fazer.

E isso tudo tu já é.''


Uma resposta de algumas linhas pra um treco que eu levei um dia escrevendo.

Ouço agora aquela da Bebel Gilberto.



E quando viu, já era quase meia noite.
Era assustador como o tempo podia passar rápido quando ela pensava. E era somente isso que estava fazendo nessa noite úmida de quarta feira, sentada com o cabelo todo bagunçado na cozinha semi-iluminada sob a sombra do vaso de vidro na mesa.
O livro aberto na sua frente, alguns trechos relidos. A xícara de café vazia, nenhuma música. Nenhum bicho lá fora, nenhum som, nadinha. Um silêncio acolhedor recebia ela pensando, as quase meia noite de uma segunda virando terça, de pés descalços, testando de vez em quando o gelado do piso com a ponta dos dedos.
Havia acordado assim hoje, pensativa. Um ou dois fatos ocorridos durante o dia fizeram que ficasse mais ainda, mas era um pensativo bom, meio sem rumo definido. Pensativo inspirado, sabem? Se assustava com esse seu mundo interior, da capacidade de absorver e inventar e recriar coisas, de transformar a realidade, de criar em cima de coisa nenhuma...era uma vastidão interminável de coisas que faziam com que as vezes ficasse assim, horas a fio somente pensando coisas disformes, amarela, azuis, roxas. Em outras horas, ficava criando esses textos sem nexo que gostava de escrever, eles que vinham sozinhos, deixava-se apenas ficar parada como se os parisse,assim , em qualquer lugar. Para perde-los ali mesmo, no instante em que nasciam. Em outras horas ainda, a nas mais absurdas- ônibus lotados, filas de banco, provadores de lojas ,reuniões de família-era capaz de imaginar com precisão o roteiro completo de um filme, com direito a trilha sonora, abertura, atores, e até entrevistas pra imprensa. Diálogos, criara uns mil. Alguns contos nunca mostrados pra ninguém, capítulos iniciais de livros nunca concluídos, um ou dois poemas. Uns desenhos meio tortos, que quando nova seu mundo interior era quase tão mais vasto quanto agora, pois conseguia desenhar. E muito,tudo. Desde restaurantes completamente planejados,com nome, logotipo,estilo e decoração. Ou coleções inteiras de moda. Também inventava coreografias, planos de aulas, projetos de leis...
Nessas inventividades um belo dia se perguntou: será que um dia esse mundo interior tão vasto começaria a brigar com o mundo exterior (na maioria das vezes sem a mesma vastidão)?
Ou será que é possível conviverem em harmonia?
Foi pensando nessas coisas todas assim tão desconectas, que ela sentada no escuro de pés descalços no piso com o livro aberto na sua frente sorriu e pensou que sim, as vezes pode ser uma grande bobagem não viver a realidade.Porém, jamais iria abrir mão da sua vastidão interior, seus pensamentos gigantescos e inexplorados por todos, existentes somente pra ela mesma. Afinal quem possui um mundo vasto, mesmo sozinho terá sempre companhia e quando estiver com companhias sempre e sempre mais vai saber aumentar o mundo delas e o seu próprio,o mundo de um se unindo com o mundo dos outros, e sendo dividido com outros, e emprestado pra outros . E desse jeito,mesmo que aos atropelos as vezes, ir dando um colorido na vida,que já é por si só tão cinza...Ela precisa da nossa imaginação e criatividade se não vira coisa inútil. Chata de se ver.
Pois agora já passava da meia noite,e a cabeça cansada de tanto pensar em coisas que ninguém mais pensa ia dormir. Talvez sonhar mais um pouco. Talvez dormir apenas.

Trecho do meu dia> 'Me chamam para a Hungria e Indonésia, arrumo/desarrumo malas por hotéis estranhos, choro em Veneza, beijo turcos em Milão, acho graça em clichês, rio com Rubem Fonseca, falo duas palavras em inglês, uma alemã, outra italiana, três francesas, outras cinco portuguesas, e não tenho mais uma vida ¨normal¨

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

E tudo que ofereço é meu calor, meu endereço

''Me veja nos seus olhos, na minha cara lavada''


Acordou as 9.30 com os gritos e reclamações da síndica sobre o vazamento, sobre que ela não podia entrar e sair em horários absurdos como aquele, que ela levaria todas essas reclamações pra reunião, e blá blá blá. Fechou a porta com o telefone tocando, onde era ele pedindo que ela se vestisse, que iam almoçar com toda a família dele, que fosse bem arrumada porque era um restaurante chique e que não se atrasasse.

Te veste,arruma o cano, seja decente, seja pontual.

E ela só queria era dormir um pouco!

E no sono entrecortado, ficar pensando no gosto doce que estava nela, no cheiro antigo e na sensação de coração cheio. E cada vez que acordasse em meio ao sono leve, queria só poder reparar na luz do dia, que ela viu nascer junto com ele, entrando pela sala, e nesse momento ela teve vontade de ir até a janela e gritar pra síndica ‘sua demônia, eu saio essa hora sim, porque tu nunca deve ter percebido que certas coisas na vida só se pode fazer assim, a essa hora!E foda-se o encanamento.”

Com certeza.

Enfim, levantou sorrindo e colocou o vestido azul com sapatos vermelhos de salto altíssimo.

Quando ele a visse iria reparar em cada detalhe e comentar todos. Para ele, queria poder dizer, quando entrassem no restaurante chique:

‘essa madrugada eu saí do nada, as quase 5 da manhã, com um cara da minha infância que não via a anos, de pijama, com minha blusa de dormir aquela branca rasgada sabe que tu tanto reclama, de chinelos de dedo rosa que nem de marca cara são, de cabelo solto e crespo e bagunçado, de cara limpa e mãos vazias e foi a coisa mais viva e bonita que eu fiz nos últimos tempos.’

Sorriu pro espelho, se arrumou mais ainda agora lembrando. Porque arrumar-se era esconder tudo, e hoje, naquela madrugada, ela foi vista mais nua do que jamais havia sido vista na vida. Por um cara que nunca viu nada do corpo dela. Mas que a conhecia na sua forma mais original e não se importava com isso.

Ao chegar no restaurante, que devia estar a dias já escolhido, sentou-se a mesa e automaticamente pensou no porquê de precisarem ir a um lugar tão chique, tão caro, tão cheio de pessoas pra mostrar ou ocultar coisas, tão cheio de garfos e tão cheio de vazio.

Se ela, nessa madrugada, entrou num carro sem nada nas mãos, e foram sem rumo algum em direção a nada, até chegarem num local em que nunca tinham ido e rir completamente disso, e voltar e ver o dia nascer num lugar totalmente qualquer, sem ninguém além dos bichos que moravam ali, e darem as mãos num gesto tão antigo quanto eles dois ali, desarrumados virados saudosistas adolescentes doidos novamente de mãos dadas vendo o dia chegar.

-Garçom, por favor, quem é que está escolhendo essa música ambiente hoje? Isso esta horrível! Mal conseguimos conversar!

Ela lhes sorriu. Pensou na música ruim que ouviu no carro. Quase teve de segurar o riso dessa vez. Que bela merda, não tinham uma música boa eles dois, impressionante! A primeira vez que se beijaram a anos luz atrás era algo do tipo mas só de ouvir a sua voz eu já me sinto bem e aquela coisa toda. E agora, mesmo se encontrando do nada, no fim de uma sexta feira que já havia acabado para ambos, depois de anos sem se ver direito, de roupa de dormir, as 5 da manhã, mesmo depois de irem até fora da cidade, voltarem, verem o dia chegar, darem as mãos, lembrarem que os perfumes mudaram mas os cheiros continuam os mesmos, depois de olhar de novo dentro daquele olho enorme assim de cara limpa, depois de tudo isso feito assim do nada, feito assim as pressas, feito assim de loucos que eram, ainda assim a única música que lembrariam era uma música ruim. Enfim, Jujuba, bananada, pipoca. E Traz todo mundo, tá convidado, é só chegar.

Perguntaram do que ela estava rindo. Ela disse que riu porque serviram carne de pato no almoço. E isso lembrava ela de uma história engraçada.