E quando viu, já era quase meia noite.
Era assustador como o tempo podia passar rápido quando ela pensava. E era somente isso que estava fazendo nessa noite úmida de quarta feira, sentada com o cabelo todo bagunçado na cozinha semi-iluminada sob a sombra do vaso de vidro na mesa.
O livro aberto na sua frente, alguns trechos relidos. A xícara de café vazia, nenhuma música. Nenhum bicho lá fora, nenhum som, nadinha. Um silêncio acolhedor recebia ela pensando, as quase meia noite de uma segunda virando terça, de pés descalços, testando de vez em quando o gelado do piso com a ponta dos dedos.
Havia acordado assim hoje, pensativa. Um ou dois fatos ocorridos durante o dia fizeram que ficasse mais ainda, mas era um pensativo bom, meio sem rumo definido. Pensativo inspirado, sabem? Se assustava com esse seu mundo interior, da capacidade de absorver e inventar e recriar coisas, de transformar a realidade, de criar em cima de coisa nenhuma...era uma vastidão interminável de coisas que faziam com que as vezes ficasse assim, horas a fio somente pensando coisas disformes, amarela, azuis, roxas. Em outras horas, ficava criando esses textos sem nexo que gostava de escrever, eles que vinham sozinhos, deixava-se apenas ficar parada como se os parisse,assim , em qualquer lugar. Para perde-los ali mesmo, no instante em que nasciam. Em outras horas ainda, a nas mais absurdas- ônibus lotados, filas de banco, provadores de lojas ,reuniões de família-era capaz de imaginar com precisão o roteiro completo de um filme, com direito a trilha sonora, abertura, atores, e até entrevistas pra imprensa. Diálogos, criara uns mil. Alguns contos nunca mostrados pra ninguém, capítulos iniciais de livros nunca concluídos, um ou dois poemas. Uns desenhos meio tortos, que quando nova seu mundo interior era quase tão mais vasto quanto agora, pois conseguia desenhar. E muito,tudo. Desde restaurantes completamente planejados,com nome, logotipo,estilo e decoração. Ou coleções inteiras de moda. Também inventava coreografias, planos de aulas, projetos de leis...
Nessas inventividades um belo dia se perguntou: será que um dia esse mundo interior tão vasto começaria a brigar com o mundo exterior (na maioria das vezes sem a mesma vastidão)?
Ou será que é possível conviverem em harmonia?
Foi pensando nessas coisas todas assim tão desconectas, que ela sentada no escuro de pés descalços no piso com o livro aberto na sua frente sorriu e pensou que sim, as vezes pode ser uma grande bobagem não viver a realidade.Porém, jamais iria abrir mão da sua vastidão interior, seus pensamentos gigantescos e inexplorados por todos, existentes somente pra ela mesma. Afinal quem possui um mundo vasto, mesmo sozinho terá sempre companhia e quando estiver com companhias sempre e sempre mais vai saber aumentar o mundo delas e o seu próprio,o mundo de um se unindo com o mundo dos outros, e sendo dividido com outros, e emprestado pra outros . E desse jeito,mesmo que aos atropelos as vezes, ir dando um colorido na vida,que já é por si só tão cinza...Ela precisa da nossa imaginação e criatividade se não vira coisa inútil. Chata de se ver.
Pois agora já passava da meia noite,e a cabeça cansada de tanto pensar em coisas que ninguém mais pensa ia dormir. Talvez sonhar mais um pouco. Talvez dormir apenas.
Trecho do meu dia> 'Me chamam para a Hungria e Indonésia, arrumo/desarrumo malas por hotéis estranhos, choro em Veneza, beijo turcos em Milão, acho graça em clichês, rio com Rubem Fonseca, falo duas palavras em inglês, uma alemã, outra italiana, três francesas, outras cinco portuguesas, e não tenho mais uma vida ¨normal¨